Mataram todas as borboletas que habitavam o estômago dela

Ela desceu as escadas. Seus pés estavam repletos de areia. Sentou na beira do cais e observou o sol, que estava indo embora. Não faz mal. Despedidas não lhe comoviam. Suspendeu o vestido até os joelhos e sentou-se molhando os pés na água morna. O dia tinha sido quente. Ainda assim, não foi capaz de se livrar do frio que habitava em seus sonhos. 
Mais cedo, ela não respondeu uma mensagem. Do outro lado, tinha alguém querendo ser a novidade que ela esperava. Alguém disposto a enfrentar o gélido abraço das despedidas que tivera. Ela não estava nem aí. Preferiu não acreditar. 
Se trancou em seu mundo paralelo, desconfiando de tudo. De todos. Do mundo. Ao amor, os sinos que ecoavam de sua alma tinham som de marcha fúnebre. Cruel, pragmática.
Corriqueiramente alguém conseguia burlar as fronteiras que ela criara.
Em vão.
Não havia caminho que levasse quem quer que seja ao que ela protegeu em sete escudos fortalecidos pela raiva. Escudos do tempo. Da vida. De memórias que ainda a transportavam para o dia em que ela sentiu uma dor tão profunda, que era incapaz de localizar de onde vinha.
Então, ela se perdeu dos sonhos. Sentada, naquele cais antigo em frente ao mar, ao sol que ia se pondo e impondo passagem a escuridão, ela fechava os olhos enquanto a temperatura da água se curvava a frieza da sua alma.
Longe dali, alguém a chamava pelo nome, fazendo sinais de luz, de amor, de afeto. Em vão. Sempre em vão.
É que mataram todas as borboletas que habitavam o estômago dela. Depois disso, ela não permitia que nenhum casulo se abrisse. Buscava no pôr do sol à beira mar as respostas. O céu lhe respondia com estrelas.
Ela não entendia. Por mais que seu coração se esforçasse em bater, doía. 
O tempo ainda não tinha sido suficiente.
Ela aguarda. 
Não está ansiosa, nem confiante.
Nem acredita.
Mas, espera.
As tentativas podem ter sido em vão até aqui. 
Mas, talvez, o esforço de alguém valha a pena. 
Talvez.


Edgard Abbehusen

A pagina foi criada pelo escritor Lucas Corrêa, nascido em 08/05/1995, cheio de vontade de escrever e passar sentimentos, Lucas começou a escrever em pequenos pedaços de papel e sentia que devia compartilhar para alguém e no dia 21 de Setembro de 2016 criou a pagina Filho de Capitu, que em menos de 4 meses conseguiu 100 Mil curtidas no Facebook e conquistou um grupo de pessoas apaixonadas pelos seus escritos!